segunda-feira, 4 de maio de 2015

INTERSER – AS FLORES E O LIXO

     
        Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está.          
    Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel “intersão”. Interser” é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical “inter” com o verbo “ser”,  teremos um novo verbo: Interser.
      Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos assim que o sol também está na folha de papel. O papel e o sol intersão.
     E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem o pão de todo dia. Portanto, o trigo que se transforma em pão também está nessa folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. Quando olhamos dessa forma, vemos que, sem todas essas coisas, essa folha de papel não teria condições de existir.
     Ao olharmos ainda mais fundo, também vemos a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados, temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é.
     Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol nada pode existir.       Se devolvermos o lenhador à sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não-papel. Se devolvermos esses elementos que não são papel as suas origens, não haverá papel algum. Sem esses elementos não-papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela.
     Imundo ou maculados. Sujo ou limpo. São conceitos que formamos na mente. Uma linda rosa que acabamos de colher e colocar num vaso é limpa. Ela tem um perfume tão bom, tão fresco. Uma lata de lixo é o oposto. Ela exala um cheiro terrível e está cheia de podridão. No entanto, isso se restringe ao olhar superficial. Se aprofundarmos nossa visão, perceberemos que, em apenas cinco ou seis dias, a rosa se torna parte do lixo. Não precisamos esperar cinco dias para ver isso. Basta que olhemos a rosa em profundidade e teremos essa visão.
    Da mesma forma, se examinarmos a lata de lixo, veremos que, em poucos meses, seu conteúdo pode se transformar em belos legumes e até mesmo numa rosa. Se você for um bom jardineiro orgânico, ao olhar para uma rosa, verá o lixo e, ao olhar o lixo, verá a rosa. A rosa e o lixo intersão. Sem a rosa, não temos o lixo. Sem o lixo, não temos a rosa. Os dois precisam um do outro. A rosa e o lixo são iguais. O lixo é tão precioso quanto a rosa. Se examinarmos bem os conceitos de imundice e limpeza, voltaremos à ideia de interser.
    Na cidade de Manila, há muitas prostitutas jovens. Algumas com apenas quatorze anos. Elas são muito infelizes. Não pretendiam se prostituir, mas suas famílias são pobres e essas meninas foram para a cidade à procura de algum emprego, como o de vendedora ambulante, para poder mandar algum dinheiro para casa. É claro que isso não acontece só em Manila. Mas em Ho Chi Minh, no Vietnã, em Nova York e também em Paris.
    Após algumas semanas na cidade, uma menina vulnerável pode ser convencida por uma pessoa esperta a trabalhar para ela ganhando talvez cem vezes mais do que poderia ganhar como ambulante. Como é muito jovem e não conhece a vida, ela aceita a proposta e se torna uma prostituta. Daí em diante, ela viverá com a sensação de ser impura, desonesta, o que lhe trará um enorme sofrimento.           Quando olhar para outras jovens, com belos trajes, pertencentes a boas famílias, ela se sentirá invadida por um terrível sentimento, um sentimento de degradação que se torna seu inferno. Se, no entanto, ela tivesse condição de examinar em profundidade a si mesma e à situação como um todo, veria que é como é porque os outros são como são.
      Por que uma “boa moça”, pertencente a uma boa família, é orgulhosa? Porque a forma de viver da “boa família” é como é, a prostituta tem que viver como prostituta. Nenhum de nós está com as mãos limpas. Nenhum de nós pode alegar que a responsabilidade não é nossa. A menina em Manila é como é porque nós somos como somos. Ao examinarmos a vida da jovem prostituta, vemos as vidas de todas as “não prostitutas”. E observando as que não são prostitutas e nosso estilo de vida, vemos a prostituta. Cada elemento ajuda a criar o outro.
   Examinemos a riqueza e a pobreza. A sociedade afluente e a sociedade miserável intersão. A prosperidade de uma é feita da pobreza da outra. “Isso é assim, porque aquilo é assim”. A riqueza se compõe de elementos estranhos à riqueza. E a pobreza de elementos estranhos à pobreza. Acontece exatamente o mesmo com a folha de papel. Devemos, portanto cuidar para não nos vermos presos a conceitos. A verdade é que tudo contém tudo mais. Não podemos simplesmente ser, só podemos interser.  Somos responsáveis por tudo o que acontece à nossa volta.
  Somente com visão do interser, aquela jovem poderá se livrar do sofrimento. Só assim, ela entenderá que leva nos ombros o peso do mundo inteiro. O que mais lhe podemos oferecer? Examinando nosso verdadeiro eu em profundidade, vemos a menina e compartilhamos da sua dor e da dor do mundo inteiro. Podemos então, começar a dar uma ajuda verdadeira.
Texto extraído do livro Paz a cada passo (Thich Nat Hanh)