terça-feira, 26 de maio de 2015

As Maravilhas do Conhecimento da Unidade

       
       A Sabedoria do Gita revela-nos que o Conhecimento ou compreensão do homem pode ser classificado em três categorias distintas.

       A primeira delas, e mais inferior no campo da evolução da consciência, é aquela em que se julga que o processo do mundo e as suas mudanças não têm objetivo algum, e que tudo existe no mundo de forma desordenada e sem qualquer propósito.
           A segunda categoria de Conhecimento é aquela em que o  homem vê todos os seres e coisas como existindo de forma separada, constituindo uma multiplicidade permanente e desigual.
          A terceira e mais elevada categoria corresponde ao conhecimento ou compreensão em que o homem reconhece a constante Unidade de todos os Seres, constituindo Um Todo, Único, Indivisível e sempre o Mesmo, na multiplicidade dos elos.
          Esta última classe refere-se  ao Conhecimento da Unidade ou Conhecimento Sintético, que é a mais elevada forma de compreensão que se pode alcançar, constituindo a meta final de todas as revelações.
         Um dos objetivos do processo evolutivo do homem é fazê-lo compreender que  não é uma criatura separada das demais e que todos os seres, inferiores e  superiores, participam de uma mesma vida e formam nos espaços infinitos um só corpo cósmico.
         Essa compreensão tem o poder de mudar os conceitos que temos sobre os valores da vida, fazendo-nos perceber que a humanidade é uma família, que a fraternidade não é uma abstração, e que o Amor é a Grande Verdade que sustenta a Vida.
         Conquistar esse nível de compreensão é uma das maiores bênçãos que podemos alcançar na Vida. Ela anula todos os males e sofrimentos causados pelo Egoísmo que se fundamenta na visão equivocada da separatividade.
         Quando alcançarmos  esse tipo de conhecimento, transcenderemos todas as ações, tanto as de resultados agradáveis como as desagradáveis. Através dele, poderemos perceber a presença divina nos nossos parentes, amigos, inimigos, estranhos, indiferentes, sábios, ignorantes e em todas as pessoas. Com essa percepção, a qualidade de nossas ações se eleva.
        Não existe nada que transforme tanto o homem no processo do mundo, como esse Conhecimento da presença de Deus em tudo. Tal como um fogo, esse conhecimento queima a impureza do apego de todas as ações. Quando agimos de acordo com ele, realizamos atos sintéticos que têm o poder de guiar, elevar e conduzir as pessoas para a Sabedoria Divina.
          Ainda que sejamos o maior entre os transgressores das Leis do Universo, se entrarmos no Barco desse Conhecimento Divino, seremos transformados em servidores do Amor.
          Nessa condição, poderemos entender porque São Francisco de Assis tratava o Sol, o Vento, os Animais, as Plantas e todos os Seres como irmãos.  Entenderemos, de igual modo, o sentido desta sublime oração desse Santo do Amor:
"Senhor, faze de mim
Um instrumento de tua paz
Onde houver ódio, faze que eu leve o amor
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Onde houver discórdia, que eu leve a união
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé
Onde houver erros, que eu leve a verdade
Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria
Onde houver trevas, que eu leve a luz,


SENHOR!
Faze que eu procure mais consolar
Que ser consolado
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois é dando que se recebe
E é perdoando que se é perdoado
E é morrendo
Que se vive para a vida eterna!

Transcrito do Blog.: liriosdocoracao.blogspot.com.br


terça-feira, 19 de maio de 2015

ADORAR

 
Adorar ao Supremo Deus manifestado como   Eu  no Santuário dos Corações é a bênção especial que nos foi concedida, neste ciclo de tempo, pelo Senhor   para que possamos alcançar, sem muito esforço, o grande Objetivo da Vida. (Sanátana Dharma Dipika, II,94).
Adorar, assim,  é  sentir a presença do Supremo  Deus em  nossos corações, governando suavemente a nossa vida, ensinando-nos, Ele próprio, as lições do sagrado caminho do Dharma(Lei Divina)  e doando-nos todo o bem de que necessitamos.
Adorar é reverenciar   os Seres Divinos(Devas), os Videntes, os Iniciados e   o Mestre pessoal ou Guru(B.Gita IX,14).
Adorar é valorizar-se e reverenciar a si próprio(B.Gita IX,14).
Adorar é também praticar a limpeza, a reta conduta, a continência e conduzir-se com uma profunda humildade (Bhagavad Gita IX,14).
Adorar é falar aos irmãos com uma linguagem  suave, que, ao mesmo tempo, não ofenda, seja verdadeira e faça  algum tipo de bem e, também,  estudar a Ciência do Coração( B. Gita IX,14).
Adorar é  também, estudar, de forma contínua,  a Ciência do Coração( B. Gita IX,14)
Adorar é manter o pensamento sereno, o contentamento, conservar a calma em todos acontecimentos, vigiar os pensamentos e agir sempre com pureza de intenção(B. Gita IX,14).
Adorar é  perceber a presença do Deus Vivo  em tudo e acolher, com reverência ,  a sua Divina Manifestação em nossa vida.
Adorar é reconhecer que o Supremo Senhor e Criador da Vida  possui  infinita Sabedoria e que tudo que Ele faz em nossa vida e na vida de todas as pessoas  é bom e  perfeito.
Adorar é manter uma conduta de total e absoluta rendição ao Senhor, não  procurando interferir na ação Dele sobre as outras pessoas, nem pretendendo modificar aquilo que Ele, través de sua  Divina Sabedoria e Bondade,  reservou para nossa vida.
Adorar é cumprir a exortação de São Paulo,   “dar  graça por tudo”,  acolhendo a Realidade da vida em toda sua inteireza e simplicidade.
Adorar é reverenciar  a Divina Presença em tudo:  na alegria, na tristeza ou na ira dos irmãos, no canto harmonioso de um pássaro e no olhar desconfiado  de um pequeno nico comendo banana na Fazenda Mãe Natureza.
Adorar é extasiar-se com o  suave perfume das flores, com a voz  misteriosa do  Silêncio, com a saudação mística  da brisa que passa, com  a escuridão da noite e   com a  luz do Sol que nos dá a Vida.
Adorar é realizar, com  profunda alegria,  a entrega do  nosso   Ser  ao Supremo Deus no Santuário Sagrado do nosso próprio Coração.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O JEJUM DO CORAÇÃO

 
    Yen Hui, o discípulo favorito de Confúcio, veio despedir-se de seu Mestre. -“Aonde você vai?”, Perguntou Confúcio. -“Vou para Wei”.-“Para quê?”.  -“Ouvi falar que o Príncipe de Wei  é  uma pessoa luxuriosa, com sangue quente nas veias e muito autoritário. Não dá a menor importância a seu povo e recusa-se a ver qualquer falha em si mesmo. Não dá a menor atenção ao fato de que seus súditos estão morrendo, a torto e a direito. Cadáveres jazem por todo país, como feno no campo. O povo está desesperado. Nos consultórios  médicos, há muitos doentes. 
  Além disso, ouvi o senhor dizer, Mestre, que devemos abandonar o Estado que esteja  bem governado e ir para o que está em anarquia. Quero aproveitar esta oportunidade para pôr em prática o que aprendi com o senhor, e ver se posso melhorar as condições de lá”.
   -“Quem dera que pudesse”, disse-lhe Confúcio. “Você não imagina o que está fazendo. Trará a ruína à sua própria pessoa. O Tao não necessita de anseios, e você apenas desperdiçará as suas energias em esforços malbaratados. Desperdiçando energias, ficará muito furioso e ansioso. Com isso,  não será mais capaz de ajudar a si mesmo.
   Os sábios antigos procuravam o Tao, primeiro dentro deles mesmos, depois olhavam para ver se existia algo nos outros que correspondesse ao Tao que eles concebiam. Mas, se você não possuir o Tao dentro de si mesmo, de que valerá gastar o seu tempo em vãos esforços, a fim de proporcionar aos políticos corruptos uma plataforma correta?... 
   Portanto, acredito que você deva ter uma certa base para esperar obter sucesso. Como acha que poderá levar avante o seu plano? - 'Yen Hui respondeu: ”Tenciono apresentar-me como um homem humilde, desinteressado, que procura apenas fazer coisas certas, e nada mais. Uma maneira inteiramente simples e honesta. Será que com isso ganharei a confiança do Príncipe?”
    -“Certamente que não”, respondeu-lhe Confúcio. “Este homem está convencido de que só ele tem razão. Pode pretender, exteriormente, interessar-se por um plano objetivo de justiça, mas não se engane com sua aparência exterior.
     Ele não está habituado a ter nenhum adversário. O seu ponto de vista é o de assegurar-se de que está certo, esmagando as outras pessoas. Se ele faz isso com os medíocres, certamente o fará com um homem que se apresenta como uma ameaça de ser alguém de altas qualidades. Ele se apegará teimosamente ao costumeiro modo de pensar. Pode pretender estar interessado em sua conversa, a respeito do que seja objetivamente certo, mas, por dentro, não lhe estará dando ouvidos, e nenhuma alteração haverá. E, com isso, você não estará realizando nada”.
     Disse-lhe Yen Hui: “Muito bem! Em vez, então, de ir-me diretamente em oposição a ele, manterei os meus próprios modos de pensar, mas, exteriormente, farei como se fosse ceder. Apelarei para a autoridade da tradição e para os exemplos do passado. Todo aquele que não for comprometido interiormente é filho do céu, tanto quanto qualquer governante. Não confiarei em nenhum ensinamento meu, e, por conseguinte, não me preocuparei se tenho ou não razão. Serei também reconhecido como alguém muito desinteressado e sincero. Todos irão apreciar a minha conduta e, assim, serei um instrumento do céu no seu meio.
   -“Desta maneira, submetendo-me à obediência ao Príncipe, como fazem os outros homens, curvando-me, ajoelhando-me, postando-me, como faria um criado, serei aceito, sem nenhuma queixa. Depois disso, outros confiarão em mim e, pouco a pouco, me utilizarão, vendo que meu desejo é apenas o de me tornar útil e trabalhar para o bem-estar de todos. Assim, servirei como um instrumento dos homens.    
  -“Enquanto isso, tudo o que tiver de dizer será expresso de acordo com a antiga tradição. Estarei trabalhando com a tradição sagrada dos antigos sábios. Embora o que eu tenha a dizer seja objetivamente uma condenação da conduta do Príncipe, não serei eu, e sim a própria tradição que estará falando por mim. Desta maneira, serei extremamente honesto e não ofenderei a ninguém. Deste modo, também, serei um instrumento da tradição. O senhor não acha que este meu modo de encarar a questão é certo?”.
   -“Evidentemente que não”, disse-lhe Confúcio. “Você tem vários planos diferentes de ação, quando você ainda nem conhece o Príncipe, nem observou o seu caráter! Na melhor das hipóteses, você poderá fugir e salvar a sua pele, mas ainda assim não estará mudando nada do que encontrou. Ele poderá, superficialmente, conformar-se com as suas palavras, mas não haverá nenhuma mudança radical em seu coração”. Disse-lhe, então,  Yen Hui: esta é a minha melhor colaboração à questão. Gostaria de que me dissesse, Mestre, o que o senhor me aconselharia”.
  -“Você tem de Jejuar!” disse-lhe Confúcio. “Sabe o que eu quero dizer com essa palavra, Jejuar? Não é fácil. Mas os caminhos fáceis não vêm de Deus”.  - “Ah”, disse Yen Hui, “Eu já me acostumei a jejuar! Em casa, nós éramos muito pobres, passávamos meses sem vinho nem carne. Isso é que é jejum, não?”
  - “Diga-me”, retrucou-lhe Yen Hui “o que se entende por Jejum do Coração?” Respondeu-lhe Confúcio: “O objetivo desse Jejum é a unidade interior. Isto significa ouvir, mas não com os ouvidos, nem com o entendimento, mas ouvir com o Espírito, com todo o seu ser. Ouvir apenas com os seus ouvidos é uma coisa. Ouvir com o entendimento á outra, porém ouvir com o Espírito não se limita a qualquer faculdade, aos ouvidos ou à mente. Daí exigir o esvaziamento de todas as faculdades.
    E quando as faculdades ficam vazias, então todo o Ser escuta. Há então uma posse direta do que está ali, diante de você, que nunca poderá ser ouvido com os ouvidos, nem compreendido com a mente. O Jejum do Coração esvazia as faculdades, liberta-o dos liames e das preocupações. O Jejum do Coração é a origem da Unidade e da Liberdade”.
   -“Já percebi”, disse Yen Hui. “O que me impedia de perceber era a minha própria autopreocupação. Se eu começar o Jejum do Coração, a autoproteção desaparecerá. Então, ficarei livre das limitações e das preocupações! Não é isso o que o senhor quer dizer?”
    - “Sim”, disse-lhe Confucio,” é isso mesmo! Se conseguir tal objetivo, você será capaz de ir ao mundo dos homens sem os perturbar. Não entrará em conflito com a imagem que eles fazem deles mesmos. Se eles o estiverem escutando, cante-lhes uma canção. Se não, fique em silêncio. Não tente arrombar-lhes a porta. Não tente novos medicamentos neles. Apenas coloque-se entre eles, porque nada há a fazer senão ser um dentre eles. Só dessa forma você obterá sucesso!”
   -“É fácil permanecer quieto sem deixar vestígios. O difícil é caminhar sem tocar o chão. Se seguir os métodos humanos, você certamente se decepcionará. No caminho do Tao,  nenhuma decepção é possível.”
  -“É fácil compreender a sabedoria dos que sabem, dos que têm asas para voar.  Difícil é compreender os que não as têm, ou os que não sabem. O genuíno sábio é aquele que aprende com a vida toda.  Não prefere e não rejeita nada,  nem ninguém.”
   -“Olhe esta janela. Nada mais é do que uma abertura na parede, mas por causa dela, todo o quarto se encheu de luz. Assim, quando as faculdades se esvaziam, o coração transborda sua Luz, e torna-se uma influência por intermédio da qual os outros são secretamente transformados”.
                                                                                                                                   Chuang – Tzu

segunda-feira, 4 de maio de 2015

INTERSER – AS FLORES E O LIXO

     
        Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel. Sem a nuvem, não há chuva. Sem a chuva, as árvores não crescem. Sem as árvores, não se pode produzir papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não está.          
    Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel “intersão”. Interser” é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical “inter” com o verbo “ser”,  teremos um novo verbo: Interser.
      Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos assim que o sol também está na folha de papel. O papel e o sol intersão.
     E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o lenhador não pode existir sem o pão de todo dia. Portanto, o trigo que se transforma em pão também está nessa folha de papel. O pai e a mãe do lenhador também estão aqui. Quando olhamos dessa forma, vemos que, sem todas essas coisas, essa folha de papel não teria condições de existir.
     Ao olharmos ainda mais fundo, também vemos a nós mesmos nesta folha de papel. Isso não é difícil porque, quando observamos algum objeto, ele faz parte de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha. É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados, temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é.
     Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol. Você acha que a folha de papel ainda seria possível? Não, sem o sol nada pode existir.       Se devolvermos o lenhador à sua mãe, tampouco teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não-papel. Se devolvermos esses elementos que não são papel as suas origens, não haverá papel algum. Sem esses elementos não-papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela.
     Imundo ou maculados. Sujo ou limpo. São conceitos que formamos na mente. Uma linda rosa que acabamos de colher e colocar num vaso é limpa. Ela tem um perfume tão bom, tão fresco. Uma lata de lixo é o oposto. Ela exala um cheiro terrível e está cheia de podridão. No entanto, isso se restringe ao olhar superficial. Se aprofundarmos nossa visão, perceberemos que, em apenas cinco ou seis dias, a rosa se torna parte do lixo. Não precisamos esperar cinco dias para ver isso. Basta que olhemos a rosa em profundidade e teremos essa visão.
    Da mesma forma, se examinarmos a lata de lixo, veremos que, em poucos meses, seu conteúdo pode se transformar em belos legumes e até mesmo numa rosa. Se você for um bom jardineiro orgânico, ao olhar para uma rosa, verá o lixo e, ao olhar o lixo, verá a rosa. A rosa e o lixo intersão. Sem a rosa, não temos o lixo. Sem o lixo, não temos a rosa. Os dois precisam um do outro. A rosa e o lixo são iguais. O lixo é tão precioso quanto a rosa. Se examinarmos bem os conceitos de imundice e limpeza, voltaremos à ideia de interser.
    Na cidade de Manila, há muitas prostitutas jovens. Algumas com apenas quatorze anos. Elas são muito infelizes. Não pretendiam se prostituir, mas suas famílias são pobres e essas meninas foram para a cidade à procura de algum emprego, como o de vendedora ambulante, para poder mandar algum dinheiro para casa. É claro que isso não acontece só em Manila. Mas em Ho Chi Minh, no Vietnã, em Nova York e também em Paris.
    Após algumas semanas na cidade, uma menina vulnerável pode ser convencida por uma pessoa esperta a trabalhar para ela ganhando talvez cem vezes mais do que poderia ganhar como ambulante. Como é muito jovem e não conhece a vida, ela aceita a proposta e se torna uma prostituta. Daí em diante, ela viverá com a sensação de ser impura, desonesta, o que lhe trará um enorme sofrimento.           Quando olhar para outras jovens, com belos trajes, pertencentes a boas famílias, ela se sentirá invadida por um terrível sentimento, um sentimento de degradação que se torna seu inferno. Se, no entanto, ela tivesse condição de examinar em profundidade a si mesma e à situação como um todo, veria que é como é porque os outros são como são.
      Por que uma “boa moça”, pertencente a uma boa família, é orgulhosa? Porque a forma de viver da “boa família” é como é, a prostituta tem que viver como prostituta. Nenhum de nós está com as mãos limpas. Nenhum de nós pode alegar que a responsabilidade não é nossa. A menina em Manila é como é porque nós somos como somos. Ao examinarmos a vida da jovem prostituta, vemos as vidas de todas as “não prostitutas”. E observando as que não são prostitutas e nosso estilo de vida, vemos a prostituta. Cada elemento ajuda a criar o outro.
   Examinemos a riqueza e a pobreza. A sociedade afluente e a sociedade miserável intersão. A prosperidade de uma é feita da pobreza da outra. “Isso é assim, porque aquilo é assim”. A riqueza se compõe de elementos estranhos à riqueza. E a pobreza de elementos estranhos à pobreza. Acontece exatamente o mesmo com a folha de papel. Devemos, portanto cuidar para não nos vermos presos a conceitos. A verdade é que tudo contém tudo mais. Não podemos simplesmente ser, só podemos interser.  Somos responsáveis por tudo o que acontece à nossa volta.
  Somente com visão do interser, aquela jovem poderá se livrar do sofrimento. Só assim, ela entenderá que leva nos ombros o peso do mundo inteiro. O que mais lhe podemos oferecer? Examinando nosso verdadeiro eu em profundidade, vemos a menina e compartilhamos da sua dor e da dor do mundo inteiro. Podemos então, começar a dar uma ajuda verdadeira.
Texto extraído do livro Paz a cada passo (Thich Nat Hanh)